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O BRINCAR COMO RECURSO TERAPÊUTICO OCUPACIONAL COM CRIANÇAS PORTADORAS DE PARALISIA CEREBRAL

 

 

 

 

 

 

 

O BRINCAR COMO RECURSO TERAPÊUTICO OCUPACIONAL COM CRIANÇAS PORTADORAS DE PARALISIA CEREBRAL

         Na fase de 0 à 01 ano, o objeto de maior atenção da criança, é o corpo e suas brincadeiras com ele, a descoberta de partes deste corpo, seu calor, equilíbrio e segurança. Somente com o tempo é que a criança utiliza-se de regras em seus jogos, onde começa a denominar objetos e suas funções. Para as crianças nesta fase, os brinquedos servem de estímulos visuais (percebe cores, movimentos e formas), gustativos (leva os objetos à boca reconhecendo-os), táteis (percebe materiais e texturas). Com estes estímulos ela aprimora sua coordenação motora ampla e fina, onde irá segurar, balançar, jogar. Com a exploração dos brinquedos, ela aprende sobre as qualidades dos objetos um em relação ao outro, sendo capaz de fazer escolhas e desenvolver habilidades intelectuais, emocionais e de comunicação.

            A aprendizagem do mundo, para a criança torna-se possível através do que ela ouve, vê, toca e prova, dependendo de alguém que interaja com ela, fornecendo ajuda quando necessário.

            Através dos marcos do desenvolvimento normal da criança iremos observar o quanto a criança irá adquirindo movimentos e posturas que facilitaram a exploração dos objetos (brinquedos), que lhes são oferecidos. Para que isso ocorra é fundamental a colaboração dos pais estimulando esta criança.

            Deverá ser levado em consideração que o brincar não é algo a ser imposto e sim proporcionado, de forma que no dia-a-dia esta criança tenha tempo para o prazer de brincar, não ocupando seu dia com afazeres e obrigações sem sentido para ela. Ter espaço para esta atividade é de vital importância, observando com cuidado para que não seja estipulado, pois também deve ser considerado o momento em que esta criança desfruta de sua imaginação, podendo ser na escola, em casa, ou na rua. “As experiências sensoriais tem um papel importante no fortalecimento e na eliminação de algumas conexões sinápticas durante todo o período crítico de desenvolvimento inicial do indivíduo fazendo com que os eventos que ocorrem precocemente durante o desenvolvimento do Sistema Nervoso Central influenciem o padrão final das conexões entre as células nervosas”.(Texeira,2003)

            Nos casos das crianças portadoras de paralisia cerebral, devido ao comprometimento motor (reflexos, tônus muscular...), limitarem todas essas experiências citadas anteriormente, necessárias para o desenvolvimento neuropsicomotor, estas crianças são diagnosticadas como portadoras de RDNPM (Retardo no Desenvolvimento Neuropsicomotor) conseqüente à Paralisia Cerebral, devido sua privação de interação com o ambiente.

            O Brincar como Recurso Terapêutico Ocupacional

                        Utilizando o brincar como um valioso recurso terapêutico, valorizamos o movimento, a imagem e o ritmo próprio – elementos básicos a serem reconhecidos, estimulados e desenvolvidos. Á partir do brincar a criança irá mostrar para o terapeuta ocupacional, suas possibilidades e limitações. Ao analisar as vantagens que a atividade recreativa proporciona no atendimento à criança portadora de Paralisia Cerebral, o profissional será capaz de potencializar as intervenções clínicas em benefício dessa clientela; pois o Terapeuta Ocupacional é um profissional capacitado para analisar atividades dentro dos mais variados aspectos e com embasamento científico.

            O tratamento de crianças portadoras de Paralisia Cerebral, requer do Terapeuta Ocupacional um análise e aplicabilidade das diversas atividades humanas no sentido de permitir ao cliente sua participação ativa que direcionará o processo de tratamento (Francisco, 1988).

            A realização de movimentos diversos no brincar permite que a criança disponha de um vocabulário motor potencialmente rico, o que facilita uma adequada exercitação muscular, além de favorecer um desenvolvimento do repertório sensorial, cognitivo, social e emocional.

            O processo de aprendizagem envolvido no brincar aprimora os canais de informação e de relação com o mundo, favorece as interações e confere um vocabulário motor que pode ser aplicado inconscientemente nas diferentes situações que a vida apresenta.

            A proposta com o trabalho, voltado para o brincar aponta do sentido que cada criança ao enriquecer seu vocabulário corporal, possa dispor de uma ampla bagagem para situar-se em diferentes situações, com uma variedade de respostas criativas diante de situações de desafio.

            Texeira (2003) afirma:
“A criança necessita apenas ser auxiliada para ter a oportunidade de descobrir e aprender, interagindo com o ambiente, buscando a propriedade e função dos objetos, manipulando e transformando-os. Aos terapeutas cabe fornecer dicas aos pais para facilitar o brincar, ressaltando a importância de brincar e fazer com a criança e não por ela. È importante a realização de uma análise das propriedades e características do brinquedo, procurando adaptar a manipulação e exploração deste à capacidade individual da criança, como, por exemplo: um brinquedo pequeno que caiba na mão, um pesado para estimulação proprioceptiva; um leve o suficiente para que se mova ao menor toque, etc. Além de apresentar essas propriedades, o brinquedo precisa oferecer desafios inicialmente fáceis de serem superado, instigando a criança à resolução dos problemas, superando gradativamente os obstáculos. È essencial que o terapeuta tenha domínio sobre o desenvolvimento cognitivo e programe atividades que sejam pertinentes à fase na qual a criança está.”

            Para Piaget: “ aprender é nada mais do que uma parte do desenvolvimento cognitivo que, através da experiência, abre um caminho e, assim, estimula e impele a continuar caminhando...Aprender está subordinado ao estágio de desenvolvimento da criança.”

            O brincar possibilita uma aprendizagem sensorial e perceptiva, com a finalidade de obter o reconhecimento da própria possibilidade do movimento. O reconhecimento do que cada um possa realizar à partir de suas próprias limitações e possibilidades, ajuda a localizar-se e aceitar-se, isto é, a ter um percepção mais precisa de si mesmo e do mundo.
           
Nas pistas para repensar o atendimento à crianças portadoras de Paralisia Cerebral, não estariam incluídas numa proposta onde o Terapeuta Ocupacional intervisse de forma menos diretiva e permitisse que a criança brincasse mais, explorasse mais o seu próprio universo?

            A reconstrução dos modelos de intervenção de Terapia Ocupacional junto às crianças portadoras de Paralisia Cerebral, passa por uma profunda revisão das necessidades das crianças, na formatação dos serviços de atendimento, e talvez até por uma nova compreensão do que é ser criança.

            A reconquista da ludicidade pelo Terapeuta Ocupacional pode estar subsidiando também a retomada de ações menos ortodoxas e mais humanizadoras na intervenção de crianças portadoras de Paralisia Cerebral.

            “Tendo claro os objetivos de tratamento, a escolha do brinquedo ou da brincadeira pode ser da criança. O Terapeuta não precisa ter medo de brincar com ela, pensando que isso banalizará o tratamento, pois o brincar é o maior aliado e melhor instrumento de terapia.” (Teixeira,2003).

 

Referências Bibliográficas

BRIKMAN, Lola. A linguagem do Movimento Corporal. 2ª edição. Tradução: Beatriz A. Cannabrava. São Paulo. Summus,1989
FRANCISCO, Berenice Rosa. Terapia Ocupacional. Campinas, SP: Papirus,1988
VELASCO, Cacilda Gonçalves. Brincar o despertar psicomotor. Rio de Janeiro: Sprint,1996
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Tradução: José Octávio de Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago,1975
TEXEIRA, Érika. Terapia Ocupacional na reabilitação física. São Paulo: Roca,2003
HEYMEYER, Ursula. O bebê, o pequerrucho e a criança maior. São Paulo: Memnon,2004